Foi também o mico-leão,
inventariado pelo príncipe austríaco Maximilian zu Wied (1815),
aventureiro que se embrenhava nas matas desde o Rio de Janeiro até a
área onde é hoje a região dos lagos fluminenses, caçando e
empalhando animais para enriquecer as coleções dos museus estrangeiros
da época.
Existem
atualmente quatro espécies conhecidas de micos-leões todas encontradas somente no
Brasil: mico-leão-dourado (L.rosalia) no Rio de Janeiro; mico-leão-de-cara-dourada
(L.chrysomelas) encontrado na Reserva Biológica de Una no sul da Bahia; mico-leão-preto
(L.chrysopygus) encontrado no Morro do Diabo, Pontal do Paranapanema (SP) e o
mico-leão-de-cara-preta (L.caiçara), descoberto pelas biólogas brasileiras Vanessa
G.Persson e Maria Lucia Lorini, em 1990, no Parque de Superagüi, litoral do estado do
Paraná.
A Mata Atlântica, onde vivem as quatro
espécies de mico-leão, é o segundo ecossistema mais ameaçado do planeta e o mais
fragmentado do Brasil, sendo que o habitat do mico-leão-dourado foi reduzido
à apenas 2% de sua área original.
ORGANIZAÇÃO DA ESPÉCIE
Normalmente o mico-leão-dourado é monogâmico. Nascem dois gêmeos fraternos por ano,
após uma prenhez de 135 dias com o peso de aproximadamente 70 grs. Os filhotes ficam
agarrados à mãe nesta primeira fase, cabendo ao pai transportá-los e protege-los mais
tarde. Sua alimentação é a base de insetos, pequenos invertebrados e frutos silvestres.
A fase adulta só ocorre após um período de 13 meses, chegando alguns micos a viverem
até 15 anos. Um mico adulto mede aproximadamente 60 cm, sendo 35 cm de cauda e pesa cerca
de 550 gr. Os grupos familiares de micos-leões são em número de cinco a seis
indivíduos, constituídos pelo macho patriarca, apenas uma fêmea reprodutora e seus
descendentes. Cada grupo define um território em torno de 40 hectares, defendendo-o de
eventuais intrusos de outras famílias.
Pesquisas realizadas pela
Associação Mico-Leão-Dourado (AMLD), apresentam um repertório de vocalizações
utilizado pelos micos. Filhotes até nove meses são "barulhentos e chorões"
vocalizando mais alto e mais freqüentemente que os adultos a fim de serem prontamente
atendidos. Quando os filhotes estão brincando, emitem sons específicos que dado o
barulho podem atrair predadores; nessa hora, os pais ficam silenciosos e supostamente
vigilantes para proteger sua prole.
A ALIMENTAÇÃO
Como têm hábitos essencialmente diurnos, dormem toda a noite, aproveitando antigos
ninhos ou cavidades naturais das árvores, reiniciando suas atividades logo ao nascer do
sol, em busca de alimentação. A dieta básica dos micos consiste em frutos, insetos e
pequenos répteis arborícolas. Vez por outra, assaltam ninhos de passarinhos para
roubar-lhes os ovos ou comerem os filhotes. Pererecas e gafanhotos constituem-se em uma de
suas principais fontes de proteínas, essenciais à manutenção da pelagem e a
exuberância de sua cor. Apesar de ser a pixirica a fruta preferida pelos micos, fazem
parte do seu cardápio mais de 60 plantas e frutas silvestres segundo o "Manual de
Flora Associada a Fauna" publicado pelo Jardim Botânico do Rio de
Janeiro.
MICOS-LEÕES-DOURADOS EM SAQUAREMA
Micos-leões-dourados vivem, ainda, refugiados no que restou do seu habitat primitivo, na
faixa litorânea ao norte do município de Saquarema. A primeira devastação desse rico
ecossistema ocorreu entre os anos de l930 e 1940, quando, para o combate ao mosquito
transmissor da febre amarela, queimou-se, de forma equivocada, um inestimável tesouro
botânico e, conseqüentemente, grande parte do habitat dos micos-leões-dourados.
Posteriormente, no final da década de
70, empreendimentos imobiliários destruíram enormes extensões da mata de
restinga, drenaram
os brejos e aterraram a faixa marginal da Lagoa de Jacarepiá. A partir daí, dezenas de
micos-leões-dourados abrigaram-se na mata contínua que hoje é parte integrante da
Reserva Ecológica Estadual de Jacarepiá (cerca de 120 hectares) e nos fragmentos
florestais próximos e em bom estado de conservação.
A partir da década de 80, um grupo
de ambientalistas criou a ADEJA - Associação de Defesa do Meio Ambiente de Jacarepiá,
com o objetivo de deter a devastação que vinha ocorrendo na área onde viviam os
micos-leões-dourados, e, dessa forma, protege-los. Várias ações foram deflagradas para
a salvaguarda daquele ecossistema, o que resultou na criação da Reserva
Ecológica de Jacarepiá (Decreto 9529-A de
15-12-86 - D.O. 30-01-87).
Entretanto, apesar de
ter sua presença comprovada cientificamente em 1992 e de habitar uma Unidade de
Conservação, continuaram os micos-leões, ameaçados pelo tráfico de animais silvestres
e pela contínua destruição de seu habitat.
Foi
então realizada
em 1996, em caráter emergencial, a translocação (resgate e transferência para outro
local, de animais vivendo sob intensa ameaça) de 11 micos para a REBIO União,
acreditando-se, na época, ser este o total da população existente na
Reserva de Jacarepiá. Mas para a
surpresa de todos, vários micos-leões-dourados foram posteriormente avistados, em inúmeras
ocasiões, no interior da Reserva e nas proximidades, não sendo possível, entretanto,
precisar quantos são, nem em que condições estavam vivendo. Ainda hoje a
presença desses micos continua sendo uma questão polêmica, envolvendo
interesses diversos, tanto por parte das entidades envolvidas, como do
Poder Público.
AS PESQUISAS
SOBRE A ESPÉCIE
As pesquisas sobre o mico-leão-dourado começaram a partir de 1960, com os trabalhos dos
Profs. Adelmar F. Coimbra Filho e Alceu Magnanini. Naquela época era comum a venda desses
animais em feiras-livres da baixada e da região dos lagos fluminense o que propiciou o
tráfico de grande número de animais para o exterior. Somente após a decretação da Lei
de Proteção à Fauna (5.197/67), houve uma diminuição no comércio ilegal de
micos-leões, mas, ainda hoje, é possível encontrar criadouros clandestinos dessa
espécie, apesar da fiscalização e da conscientização existentes.
Em 1992 foi criada a AMLD (Associação
Mico-Leão-Dourado) com o objetivo de desenvolver e implementar estratégias para salvar
da extinção a espécie que, na época, estava criticamente ameaçada.
Através do contínuo
estudo e monitoramento do comportamento dos micos e utilizando todas as informações
obtidas ao longo destes anos, foi possível, para aquela instituição definir estratégias de
manejo e conservação para a espécie. Uma das características marcantes do Projeto
Mico-Leão-Dourado é o uso de técnicas de reintrodução e translocação de animais. A
reintrodução consiste em promover a reprodução em cativeiro de famílias de
micos-leões-dourados que depois são soltas no seu habitat natural, após um período de
preparação. Com a reintrodução foram devolvidos à liberdade 147 micos-leões-dourados
nascidos em zoológicos do mundo todo, através da soltura dos animais nas matas
existentes em propriedades particulares ao redor da REBIO de Poço das Antas.
As translocações de
micos-leões-dourados começaram a ser feitas em 1994. Os animais são retirados das
áreas consideradas inadequadas para sua sobrevivência e soltos em espaços
maiores e mais protegidos, com capacidade para
garantir o crescimento futuro da população. Além de salvar e integrar grupos de
micos-leões isolados, evitando a consangüinidade, a translocação permite a
realização de estudos sobre comportamento animal, alimentação, etc.
São necessários 25
mil hectares de mata para manter uma população de 2000 micos-leões, o mínimo
necessário para evitar a extinção da espécie. Este número só será atingido,
mantidas as atuais condições, no ano de 2025. Para isto, é preciso recuperar parte da
Mata Atlântica e assim garantir espaço suficiente para que o mico-leão-dourado consiga
se alimentar e se reproduzir. Atualmente só existem 16.600 hectares assegurados e a
população atual de micos-leões já ultrapassou a mil vivendo em
liberdade, ou seja, estamos na metade do caminho.
O esforço e os
recursos aplicados na proteção e recuperação das populações de micos-leões-dourados
não visam apenas preservar um belo animal, por mais importante que ele seja. O
mico-leão-dourado é, na verdade, uma espécie-bandeira, um símbolo da conservação da
Mata Atlântica. Preservar o mico-leão-dourado significa preservar o que resta desse
importante ecossistema tão ameaçado e também preservar inúmeras outras espécies que
convivem com ele.
Espécies-bandeira como o
mico-leão cumprem ainda um importante papel na mobilização da sociedade, fator
fundamental para o sucesso de ações de conservação.